Home Data de criação : 09/07/14 Última atualização : 10/02/09 19:15 / 20 Artigos publicados
 

PESCADORES  (COLUNA) escrito em terça 09 fevereiro 2010 19:15

Qual é o papel da escola na sociedade? Educar seria a resposta óbvia. Entretanto, quando vemos crianças na rua pedindo esmolas, comida, dormindo nas calçadas ou debaixo de viadutos, vemos que este papel não está sendo cumprido a contento. A escola, representante do Estado no ensino, tem o dever, a obrigação de prover educação eficaz e de qualidade para todos e, principalmente, os menores de idade. Mas só dar educação não basta mais. Para estas crianças terem um bom desempenho na escola, o governo deve incluir os pais ou responsáveis – que se encontram em igual situação – nesta equação. Ou seja, sociabilizar e educar esta população carente e abandonada.

            A situação que se apresenta é esta: crianças, homens, mulheres, famílias ou não vivendo na rua precariamente. Dizem, alguns, que por escolha. Será mesmo? Talvez, porém, estes indigentes já foram crianças algum dia. Será que escolheram viver assim? O abandono destes infantes é geral, tanto por parte dos pais quanto por parte do governo que durante muito tempo fechou os olhos ou simplesmente lavou as mãos para este problema.

            Esta é uma questão antiga e complexa. A origem vem desde a época do Brasil Império e até hoje, muito se falou e pouco se fez. Há programas como o Bolsa-Família que visam introduzir estes jovens carentes em escolas públicas e a sua permanência nestas. Contudo, o programa traz falhas e não são poucas. Com fiscalização escassa não há um controle efetivo sobre se as famílias cadastradas estão recebendo o valor em dinheiro. E a falta de metas claras sobre o que se quer alcançar com as crianças na educação torna este programa e seus derivados apenas mais uma esmola, que neste país com uma das maiores taxas tributárias do mundo, praticamente, tornou-se mais um imposto.

            É claro que estes programas visam também à distribuição de renda igualitária para a população das classes baixas. Mas só dar o peixe pode ser um erro. Nesse sentido, se estes ou outros programas estivessem associados de forma objetiva e efetiva à educação, então parte do ensinar a pescar estaria resolvido. Porém, enquanto o governo não enxergar a educação como investimento e não como mais um gasto, o ensino brasileiro não sairá da estaca zero.

            Sem levantar mais acusações que não levam a lugar nenhum, cabe a escola, ao governo, a sociedade, portanto, “seqüestrar” estes meninos e meninas de rua e colocá-los em salas de aulas para mais do que ensiná-los a ler e escrever mostra-lhes que também são cidadãos e que devem respeitar e ser respeitados. Os pais ou responsáveis por estas crianças também devem ser incluídos junto dos seus filhos para que possam desenvolver-se e cumprirem um papel relevante na sociedade. Assim, a função da escola estaria sendo realizada: o de não apenas ensinar a pescar, mas mostrar de onde vem o peixe, qual é o seu habitat, como surgiu a prática da pesca, etc.

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PESCADORES  (COLUNA) escrito em terça 09 fevereiro 2010 19:14

Qual é o papel da escola na sociedade? Educar seria a resposta óbvia. Entretanto, quando vemos crianças na rua pedindo esmolas, comida, dormindo nas calçadas ou debaixo de viadutos, vemos que este papel não está sendo cumprido a contento. A escola, representante do Estado no ensino, tem o dever, a obrigação de prover educação eficaz e de qualidade para todos e, principalmente, os menores de idade. Mas só dar educação não basta mais. Para estas crianças terem um bom desempenho na escola, o governo deve incluir os pais ou responsáveis – que se encontram em igual situação – nesta equação. Ou seja, sociabilizar e educar esta população carente e abandonada.

            A situação que se apresenta é esta: crianças, homens, mulheres, famílias ou não vivendo na rua precariamente. Dizem, alguns, que por escolha. Será mesmo? Talvez, porém, estes indigentes já foram crianças algum dia. Será que escolheram viver assim? O abandono destes infantes é geral, tanto por parte dos pais quanto por parte do governo que durante muito tempo fechou os olhos ou simplesmente lavou as mãos para este problema.

            Esta é uma questão antiga e complexa. A origem vem desde a época do Brasil Império e até hoje, muito se falou e pouco se fez. Há programas como o Bolsa-Família que visam introduzir estes jovens carentes em escolas públicas e a sua permanência nestas. Contudo, o programa traz falhas e não são poucas. Com fiscalização escassa não há um controle efetivo sobre se as famílias cadastradas estão recebendo o valor em dinheiro. E a falta de metas claras sobre o que se quer alcançar com as crianças na educação torna este programa e seus derivados apenas mais uma esmola, que neste país com uma das maiores taxas tributárias do mundo, praticamente, tornou-se mais um imposto.

            É claro que estes programas visam também à distribuição de renda igualitária para a população das classes baixas. Mas só dar o peixe pode ser um erro. Nesse sentido, se estes ou outros programas estivessem associados de forma objetiva e efetiva à educação, então parte do ensinar a pescar estaria resolvido. Porém, enquanto o governo não enxergar a educação como investimento e não como mais um gasto, o ensino brasileiro não sairá da estaca zero.

            Sem levantar mais acusações que não levam a lugar nenhum, cabe a escola, ao governo, a sociedade, portanto, “seqüestrar” estes meninos e meninas de rua e colocá-los em salas de aulas para mais do que ensiná-los a ler e escrever mostra-lhes que também são cidadãos e que devem respeitar e ser respeitados. Os pais ou responsáveis por estas crianças também devem ser incluídos junto dos seus filhos para que possam desenvolver-se e cumprirem um papel relevante na sociedade. Assim, a função da escola estaria sendo realizada: o de não apenas ensinar a pescar, mas mostrar de onde vem o peixe, qual é o seu habitat, como surgiu a prática da pesca, etc.

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MEMÓRIAS DE UM HOMEM INCOMPLETO - 5  (CONTO) escrito em quarta 02 dezembro 2009 20:03

Se Deus criou o homem e o homem criou as máquinas, será que elas têm o tanto direito à vida quanto os humanos? É essa a pergunta que Davi, um ser (humano) de vida artificial se faz depois que fugiu do laboratório onde foi criado. Ele só quer o que todo mundo procura: um lugar no mundo e viver.

 

 

 

O RETORNO

 

 

 

 

A viagem dura em média uma hora a partir da estação de trem do centro da cidade até aqui em São Marcos. Do terminal de trem de São Marcos até o bairro onde ela mora, é mais uma hora a pé, meia se for de ônibus ou de carro. Vou a pé. Chego no tempo estipulado, não quero ter pressa apesar de tudo. Estranho um pouco o local, muito diferente da “cidade grande” onde só existem prédios enormes, grandes avenidas e gente que não acaba mais. Aqui apenas se ouve passarinhos piando nas árvores – há árvores! – e algumas crianças brincando num jardim próximo. Os sobrados são todos iguais: quintal grande na frente com um pequeno jardim, não existem cercas ou muros, as portas duplas na entrada parecem, realmente, convidar-nos a entrar, contudo, as janelas de fibra de carbono e vidro reciclado deixam uma certa frieza na paisagem bucólica, o que os difere são as cores, salvo um ou outro com a mesma pintura, entretanto, estes, encontram-se em ruas diferentes e os números evitam maiores confusões. É no número vinte, da segunda rua, que eu me dirijo. Curiosamente a única casa do bairro todo que é branca. Fico em frente ao quintal esperando que algo ou alguém me impeça de continuar. Nada acontece. Então continuo. Em frente à porta, hesito para apertar a campainha. Não sei quanto tempo fiquei ali parado pensando em uma outra solução, mas quando a porta abre e Danielle aparece na minha frente, vejo que não há mais nenhuma escolha. Ela não mudou praticamente nada: continua esbelta, alta, mesmo de sandálias; o contraste da sua pele alva com o cabelo liso e preto só exalta sua seriedade; os olhos claros dão um ar de... sensualidade? O conjunto monocromático em pastel alardeia a sobriedade desta mulher de trinta e um anos com doutorado em neurociência aplicada em genética e robótica.

            - Não quer entrar, Davi? – a voz é calma e suave, tão suave que faz você se sentir seguro e tranqüilo. Não, não quero penso comigo mesmo, no entanto, não tenho outra escolha. Quando entro na sala de estar pareço estar dentro de um dos consultórios do Centro. Dentro é bem frio em todos os sentidos. As paredes de dentro, assim como as de fora, são totalmente brancas, como se fossem uma extensão de sua pele; há pouquíssimos móveis, todos feitos de plástico sintético, não há nenhum quadro na parede ou outro objeto de decoração, apenas os três sofás e uma mesa de centro no meio. Não ficarei surpreso se tudo estiver milimetricamente disposto.

            - O chá que estou preparando está quase pronto. Por que não se senta?

            - Como sabia que eu viria, Danielle?

            - Você sempre veio a mim quando tinha algum problema. O que aconteceu não é diferente. Ou é?

            - Mas, você estava me esperando, nem apertei a campainha. Como sabia?

            - Da mesma forma que você sabia exatamente onde fica a minha casa.

            - Como?!

            - Cada um de vocês tem na memória a localização de um local específico onde, por algum tipo de caso especial, poderão encontrar seus respectivos tutores. No seu caso, eu.

            - Mas, como é possível? Vocês sabiam que íamos fugir? E se sabiam, por que deixaram, foi outro teste?

            - Não, não foi um teste, Davi, foi um acidente, vocês não deviam ter fugido. Quanto ao resto...  bom, Davi, eu sei tudo sobre você.

            - Tudo o quê? – o sofá é frio e duro.

            - Tudo. O que você quer saber?

            - Quem... sou eu?

            - Não vou mentir para você, Davi, vocês são o ponto máximo da criação humana. Uma nova forma de vida. Mais que uma máquina, mais que o próprio homem, vocês são quase o ser perfeito.

            - Então, eu sou um andróide não é isso! Um ser artificial!

            - Não, Davi, vocês são uma nova espécie de ser vivo, entende. Será que é necessário que um ser nasça do útero de uma mulher para ser considerado humano? Séculos atrás, crianças foram geradas em incubadoras e chamadas de “bebês de proveta”, eles foram considerados artificiais? Em outros casos, mães com problemas de gestação tiveram a concepção dos gametas masculino e feminino fora do útero e, posteriormente, introduziam-no o embrião. Um procedimento artificial gerando um ser natural. E hoje, que tem pais que praticamente encomendam seus filhos definindo, antes de nascerem, a cor do cabelo, olhos, altura, e até prevendo e tratando de possíveis doenças que possam se manifestar no futuro. Isso também poderia ser considerado artificial e, no entanto, não é. Você é tão normal quanto qualquer um.

            - Isso não faz sentido, Danielle. Meu corpo não é igual ao de um homem normal, meu cérebro parece mais um computador do que um órgão humano...

            - Davi, seu corpo não precisa ser igual ao de todo mundo, ele é diferente, melhor até do que todos nós e quanto ao seu cérebro, afinal o que é o cérebro senão uma outra espécie de computador que...

            - PARA, PARA, CHEGA! Pode parar aí mesmo! Eu sei que sou um andróide, certo. Mais que uma máquina, sim, mas, menos do que um ser humano porque o que sinto, minhas lembranças do passado, é tudo falso. Você mesmo disse que somos programados. Eu só quero saber para o que, afinal, fomos programados para fazer.

            - Tudo bem, Davi, acalme-se e continue sentado, eu lhe direi o que quer saber.

            - Não, eu não vou me sentar! Eu estou confuso, com medo, machuquei algumas pessoas e não estou conseguindo me controlar. Eu vim aqui porque não tinha mais nenhum outro lugar onde encontraria ajuda e, infelizmente, você é a única que pode me ajudar. E então, vai me ajudar?

            - É claro que vou ajudá-lo, Davi, sempre ajudei. Conte tudo o que aconteceu, você disse que machucou pessoas?

            - Sim... eu tenho momentos que simplesmente, não consigo me controlar e acabo agredindo certas pessoas ou destruo o lugar em volta. Por que isso acontece?

            - Muito bem, Davi, diga-me: essas pessoas, que você diz ter machucado, atacaram você?

            - Por que me pergunta isso?

            - Bom, Davi, vocês foram, por falta de um termo melhor, programados com algo que chamamos de autodefesa. Vocês possuem noções básicas de luta que é ativado quando sentem que vocês mesmos ou alguém que querem proteger estão ameaçados de alguma forma. Fale, isso aconteceu? – Lembro-me dos guardas no centro comercial e do pai de Pedro.

            - Sim, aconteceu, mas por que temos isto e por que não consigo controlar?

            - Conte-me uma coisa, Davi, como andam seus sentimentos, suas emoções, tem gostado de alguém, algum tipo de afeição, amizade ou mesmo amor? – Mais uma vez lembro-me de Daniel, Pedro, Carlos e Beatriz.

            - Sim, tenho sentimentos por algumas pessoas e acho que você já sabe disso. E o que tem a ver, por que é tão importante?

            - Bom, Davi, vocês também foram programados com o que chamamos de emovirtu. É um programa experimental que simula emoções, ou seja, em determinada situação, o emovirtu se ativa e “diz” a você o que ou como sentir.

            - O quê?

            - Isso mesmo, Davi. Infelizmente, o emovirtu apresentou algumas falhas acredito que são essas falhas que o faz se descontrolar. Era por isso que vocês não podiam fugir e, por isso, vou te pedir agora: volte, Davi! Volte para casa. Tenho certeza de que lá poderei ajudá-lo.

            - Voltar! Você quer que eu volte pro CTN? Aquele lugar mais parece uma prisão! Mal podíamos tomar um simples banho de Sol. Não, eu não vou voltar. Quero que me ajude aqui mesmo!

            - Davi, preste atenção, eu só posso ajudá-lo no CTN. Não tenho o equipamento necessário aqui comigo. Volte, Davi, além do mais, não há mais nenhum sentido que só você fique aqui fora.

            - Como assim?!

            - Davi, só falta você. Todos os outros já retornaram. Você é o único que resta.

            - Mentira! Não faz menos de dois dias que falei com Carlos! Ele ainda está por aí, e outros também.

            - Davi, Carlos foi um dos primeiros que capturamos. Não há mais ninguém, Davi, só você. Por favor, volte.

            - Mas como? Eu falei com ele! Como ele foi um dos primeiros capturados se... não, não pode ser. Eram vocês! Vocês falavam comigo se passando por Carlos. Vocês me enganaram! Você me enganou, não foi? Vamos, fale alguma coisa! – mas ela não fala nada, apenas me olha com aqueles olhos, aqueles olhos claros de uma sensualidade estranha, uma sensualidade fria. São como dois cubos de gelo me fitando.

            - Por quê? Por que tudo isso? Por que afinal estamos aqui?

            - Davi, ouça-me...

            - RESPONDA! Por que vocês nos criaram?

            - Acalme-se, Davi. Muito bem, nós criamos vocês... para serem a salvaguarda da humanidade.

            - Salvaguarda?!

            - isso, Davi, veja, nos últimos tempos, a humanidade passou por horríveis catástrofes: no século vinte e um, houve a Terceira Guerra Mundial e o Segundo Dilúvio; no século vinte e dois, A Grande Seca assolou metade do globo e vitimou mais gente do que qualquer guerra ou epidemia viral; e agora, temos a supergripe. O homem está se extinguindo, Davi. Por causa disso tudo, as pessoas estão parando de ter filhos. Sei que as cidades estão superpopulosas, mas isso é porque há poucas ainda com estrutura de moradia e oferta de emprego. A maioria está preferindo viver nas colônias lunares ou marcianas, mesmo com toda a precariedade. Foi por isso que criamos vocês. Vocês não envelhecem e, no caso da civilização chegar a níveis muito baixo de natalidade, serão vocês que guiarão e manterão a vida dessas pessoas, para que, de geração em geração o homem floresça novamente e torne-se auto-suficiente.

            - E nós, Danielle?

            - O quê, Davi?

            - Quando o homem ficar auto-suficiente não seremos mais úteis, certo? Então, o que farão conosco?

            - Ora, Davi, vocês ainda terão um lugar nessa nova civilização. O conhecimento e a experiência que vocês têm e terão será tão importante quanto...

            - Não adianta!

            - Como, Davi?

            - Não adianta, eu não acredito mais em você.

            - Davi... eu não sei mais o que posso dizer...

            - Então, não diga mais nada. Durante todo o tempo no CTN você só mentiu pra mim, e mente agora também. Eu não sei onde estava com a cabeça quando pensei que podia me ajudar e é óbvio que não pode e nem mesmo quer!

            - Eu quero te ajudar, Davi. Não faça isso, pode estar cometendo um erro.

            - Meu único erro foi ter confiado em você, Danielle. Não farei isso de novo.

            - Davi, não!

            - Adeus, Danielle.

            Eu devia estar muito distraído com a discussão que não percebi que havia movimento ao redor da casa. Só quando me volto para a porta é que vejo vultos pela janela: são três... não, quatro lá fora aproximando-se. Volto-me outra vez para Danielle e ela está sentada imóvel, é quando mais três guardas do CTN adentram a sala vindo do interior da casa. Ao mesmo tempo, ouço a porta da sala sendo arrombada e os guardas do lado de fora invadem o recinto. Eles estavam me esperando, ela estava me esperando, era uma armadilha e só percebi muito tarde. E antes que eu pudesse pensar em fugir ou atacá-los, sou atingido por um taser nas costas, outro no braço, mais dois no peito e é o suficiente para que eu caia. Enquanto me debato no chão, Danielle se aproxima e ejeta com uma seringa laser algo que faz com que meu corpo paralise – Vai ficar tudo bem, Davi – diz ela com aquela voz suave. Sou colocado em uma maca e levado para um furgão. Estou voltando para o CTN. Contra a minha vontade por pessoas que confiei um dia. Voltarei à minha maternidade, meu lar da infância e adolescência, a minha escola e o meu trabalho. Retorno ao lugar onde nasci e que, muito provavelmente, será o lugar onde morrerei. Espero morrer um dia.

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EM SE VIVENDO...  (POEMA) escrito em terça 17 novembro 2009 19:52

Para Elza Ferreira

 

NA VIDA, PLANTAMOS TUDO:

NOSSOS SONHOS, DESEJOS SINCEROS;

NOSSAS ESPERANÇAS, A CURA DOS MEDOS;

ATÉ NOSSO AMOR, FRUTO DA CRIAÇÃO.

 

PASSANDO PRO CHUVAS TORRENCIAIS

E POR VENTANIAS DESGARRADAS,

GANHAMOS FORÇA A CADA VERGÃO.

A BELEZA DO TEMPO NA FEIÇÃO DEMENTE.

 

O NOSSO ESPÍRITO DE VERÕES PASSADOS

TRAZ NO SEU BRILHO O SABER DA CERTEZA,

VIVÊNCIA DURÁVEL DE VALOR INCOMENSURÁVEL.

 

ANDAR PRA FRENTE É SEMPRE PRESENTE.

E SE SOMOS CARENTES MESMO POTENTES,

QUE A INFÂNCIA SEJA ETERNA DURANTE A VIDA BELA.

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MEMÓRIAS DE UM HOMEM INCOMPLETO - 4  (CONTO) escrito em sexta 06 novembro 2009 20:37

Se Deus criou o homem e o homem criou as máquinas, será que elas têm o tanto direito à vida quanto os humanos? É essa a pergunta que Davi, um ser (humano) de vida artificial se faz depois que fugiu do laboratório onde foi criado. Ele só quer o que todo mundo procura: um lugar no mundo e viver. 

 

INOCENTE

 

          /C-A-R-L-O-S H-Á Q-U-A-N-T-O T-E-M-P-O? O-N-D-E V-O-C-Ê E-S-T-Á?/

            /E-S-T-O-U E-S-C-O-N-D-I-D-O E-M U-M A-L-B-E-R-G-U-E/E V-O-C-Ê O-N-D-E E-S-T-Á-?/

            /N-O M-O-M-E-N-T-O N-U-M-A L-A-N T-E-C-L-A-N-D-O C-O-M V-O-C-Ê/O Q-U-E T-E-M F-E-I-T-O/T-E-M C-O-N-T-A-T-O C-O-M M-A-I-S A-L-G-U-É-M?/

            /N-Ã-O I-F-E-L-I-Z-M-E-N-T-E/E-S-T-O-U P-R-E-O-C-U-P-A-D-O/V-A-M-O-S N-O-S E-N-C-O-N-T-R-A-R E-M A-L-G-U-M L-U-G-A R.

/T-A-L-V-E-Z J-U-N-T-O-S P-O-S-S-A-M-O-S E-N-C-O-N-T-R-A-R O-S O-U-T-R-O-S/

            /C-O-N-C-O-R-D-O/M-E-U T-E-M-P-O A-Q-U-I E-S-T-Á A-C-A-B-A-N-D-O/V-O-U P-R-E-C-I-S-A-R D-E M-A-I-S C-R-É-D-I-T-O-S/T-E-N-T-E C-O-N-E-C-T-A-R-S-E N-A U-N-I-N-E-T A-M-A-N-H-Ã N-E-S-S-A M-E-S-M-A H-O-R-A/C-O-B-I-N-A-R-E-M-O-S T-U-D-O/

            /O-K/N-O-S V-E-M-O-S A-M-A-N-H-Ã/

            Me sinto mais aliviado agora que encontrei alguém. Ainda mais Carlos, meu colega de quarto. Enquanto saio da lan-house, penso em alguma maneira de conseguir mais créditos para voltar a falar com ele amanhã. Talvez se eu for ao asilo ver se precisam de mais serviços de jardinagem ou naquela escola de música, parece que sempre precisam de uma ajuda extra com a faxina. Caminhando pelos corredores do centro comercial meus pensamentos, de repente, são interrompidos por um... atropelamento? É um garoto, baixinho, aproximadamente uns nove, dez anos de idade – me ajuda moço, me ajuda! – diz ele desesperado e assustado. É quando vejo vindo logo atrás dele três seguranças apontando em minha direção e cada um armado com bastões de contenção. Por alguns segundos fico paralisado de medo também. Os seguranças troncudos, vestidos de preto me lembram muito os do CTN. Em algumas ocasiões, não mediam esforços para manter ordem no local.

            - Foge não ladrãozinho! Agora a gente te pega! – diz um deles pegando o menino pelo braço.

            - Não, me larga - grita o garoto chamando a atenção de todos ao redor - não deixa eles me levarem moço, por favor, eu não fiz nada!

            - Cala a boca, moleque! Fica quieto - diz outro segurança.

            - Esperem – resolvo intervir – o que este garoto fez de tão grave?

            - Ele é um ladrãozinho safado, senhor. Não se preocupe. A gente cuida disso.

            Os seguranças o levam apesar do garoto se debater e espernear pedido socorro. Na verdade, só incita mais violência por parte deles. Todos que estavam em volta olhando o garoto ser puxado e agredido voltam-se a sua caminhada como se nada de mais tivesse acontecido. A frieza que as pessoas demonstram em certas situações me assusta. Ninguém sequer esboçou qualquer reação para ajudar o menino. Nessas horas, me orgulho de dizer que não sou humano. Me recuso a pensar ou agir dessa forma. Resolvo ir atrás deles na esperança de convencê-los a brandar seu procedimento. Há maneiras menos agressivas de lidar com essas situações, ainda mais se tratando de uma criança.  Aperto o passo e consigo vê-los entrando num dos acessos ao estacionamento e abrindo uma porta numa das paredes no que se parece ser uma espécie de sala. Não consigo alcançá-los a tempo. Eles fecham a porta para mim. Mal encosto meu rosto contra ela e ouço um som abafado, parecendo um tapa. Grudo meu ouvido e consigo ouvir o que parece um choro de criança seguido de um “pare”. Não suporto mais, forço a porta com o pé e no que se abre vejo uma cena de extrema covardia: os três seguranças em cima do garoto! Enquanto um o segura, outro lhe aplica sucessivos tapas no rosto; o terceiro, o cutuca nas costas com o bastão de contenção. Com o barulho da porta sendo arrombada eles cessam, pelo menos por ora, com a brutalidade.

            - Sai daqui, cara, isso não é assunto seu! – diz um deles se dirigindo para mim.

            - SOLTE O MENINO! – grito enfático. Um deles vem pra cima de mim, eu o pego pelo colarinho e jogo-o contra a parede. Somente dessa forma os outros dois largam o menino e voltam sua atenção para mim. O que vem na frente tenta me atacar com o bastão. Tenta! Sou mais rápido! Seguro-o com a mão, giro e acerto uma cotovelada no seu nariz. Enquanto este cai no chão, com o rosto em sangue, o que vem atrás agarra meu braço e esmurra meu estômago. Chego a curvar mais pelo impacto do que por dor – que não sinto. Então, enquanto ele segura meu braço também agarro o dele e puxo com toda força fazendo com que minha cabeça choque-se contra sua testa. Com o terceiro e último segurança caído no chão, volto-me para o menino – vamos sair daqui – puxando-o pelo braço e correndo em disparada em direção a porta e a saída do centro comercial antes que alguém perceba meu impetuoso resgate e chame mais seguranças.

            Chegando à calçada, levo-o direto a estação de metrô mais próxima. É o transporte mais rápido que existe evitando assim qualquer tipo de perseguição. O menino não fala, mas parece concordar.

            - Qual é o seu nome? – pergunto já dentro do trem.

            - É Pedro moço – responde meio assustado ainda. Os hematomas no rosto lhe dão motivo para tal.

            - Por que o pegaram, Pedro?

            - Porque... - hesita um pouco, mas responde - eles acharam que eu peguei alguma coisa. Mas não peguei nada não moço! Sou inocente!

            - Me chame de Davi, Pedro e não se preocupe, está a salvo agora – tento acalmá-lo dizendo isso – Onde mora? Levarei você pra casa.

            - Moro no campo habitacional trinta e um, na zona norte.

            - Tudo bem, chegaremos logo.

            Cinco estações e mais três quarteirões a pé depois chegamos ao chamado CAHESP unidade trinta e um. Segundo o governo, o local servirá em breve para a construção de moradias para as pessoas de baixa renda. O que se vê na verdade, é um amontoado de barracos colados um ao outro quase sem nenhuma organização e muito menos limpeza. Lugares assim eram chamados de favelas no passado. É incrível como a humanidade evolui em alguns pontos, mas em outros parece simplesmente relutar quando o assunto envolve pessoas carentes.

            - É ali, Davi, o número vinte e dois - Pedro me mostra seu lar, modesto claro como todos os outros – daqui eu vou sozinho, Davi, obrigado – diz ele apressado.

            - Espere, Pedro, deixe-me levá-lo até a porta, talvez eu deva falar com seus pais.

            - Não, Davi, não precisa, eu... – ele é interrompido por um homem que sai de sua casa parecendo mais um bicho do que um ser humano: gordo, sujo, barbudo, roupas igualmente sujas e rasgadas, mais balbucia do que fala. Obviamente está bêbado.

            - Onde tu tava, muleque? Já falei pra num sai sem eu dexá! Vô te ensiná a não me obedece!

            Ele pega Pedro pela camisa e fecha sua mão em direção ao menino. Ele bateria em Pedro ali mesmo na rua com todos olhando. Bateria, porque eu não deixo! Quando ele vai desferir o soco no garoto eu seguro seu pulso, é quando ele nota minha presença.

            - O que que ... quem é... hu, ahhhhhh! – Não o deixo falar, aperto seu pulso e imediatamente ele larga Pedro, com mais força, faço-o ajoelhar-se diante de nós dois.

            - Faz isso não, Davi, por favor! – tento ignorar os apelos de Pedro, mas é difícil. A compaixão que ele demonstra pelo pai mesmo com o que estava prestes a fazer é comovente – ele é meu pai, Davi, solta ele – e o faço. Há muita gente em volta e eu não quero chamar mais atenção. Resolvo ir, mas não antes de deixar um aviso.

            - Eu voltarei depois para ver o menino, dirigindo-me ao pai ainda ajoelhado no chão, se eu ver ou perceber que ele foi agredido, você receberá o triplo, está entendido – ele resmunga algo intraduzível e baixa a cabeça. Espero mesmo que ele tenha entendido.

            - Ta tudo bem, Davi, pode ir.

            - Preciso mesmo ir, Pedro. Voltarei o mais rápido que puder.

            - Ta, Davi, obrigado – me despeço e na saída do campo habitacional dou uma última olhada para trás e vejo Pedro segurando seu pai pelo braço e o levando para casa. Sinto um certo arrependimento ao deixá-lo sozinho.

            Dois dias depois, volto para ver Pedro. Queria poder voltar antes, mas fiquei receoso com a atenção que chamei para mim tanto no centro comercial, quanto aqui. Com o resto dos meus créditos trago um presente para ele: um carrinho em miniatura. Não há muito destes por aí. Foi mesmo sorte tê-lo achado. Estou bem próximo da casa de Pedro quando vejo mais abaixo, a minha direita, pessoas correndo e um tumulto perto do que será no futuro uma praça. Não quero desviar meu caminho e volto-me para a casa do Pedro. É então que ouço alguém gritando: “É ELE SIM, É O PEDRINHO!” Mal posso acreditar! Será que é o mesmo Pedro? Fico em dúvida alguns segundos, se vou ou não ver. Decido ir, não há outra alternativa. Chego até onde está a multidão. Eles fazem um círculo e no meio tem um corpo. Um corpo pequeno para a idade penso eu, nove, dez anos, muito baixinho, mas já falava como um homem. Pedro, um garoto inocente, morto pelo quê, por quem? É claro que esta pergunta tem uma resposta. Eu avisei a ele. Se acontecesse algo, se ele fizesse algo... Isso não ficará em pune! Ele não matou apenas o filho, matou também as esperanças e os sonhos que este garoto tinha ou poderia ter. Não lhe deu a mínima chance. Eu também não darei. De repente, sinto uma espécie de aperto dentro de mim. Algo querendo sair. Sinto um líquido oleoso, amarelado, escorrer do meu olho esquerdo... Não pode ser! Eu posso chorar?! Esqueço um pouco isto e me volto para Pedro. Resolvo deixar meu presente ao seu lado. Exatamente como deveria ter sido e vou atrás do seu assassino. Tenho um palpite de onde ele possa estar. Há um bar em frente ao campo habitacional, atravessando a avenida. O lugar é pequeno, mas movimentado, há diversas mesas na entrada e nos fundos um balcão onde servem as bebidas. Vejo-o logo de cara, é fácil reconhecê-lo, está do mesmo jeito e com a mesma roupa. Chego a sentir pena. Aproximo e toco no seu ombro para chamar sua atenção.

            - O que que é que você quer?

            - Não se lembra de mim, eu o avisei.

            - Me avisou, avisou do quê mané, sai fora!

            Minha paciência se esgota. Puxo-o pela camisa e o jogo no chão. Ele se assusta e tenta se levantar, mas eu não deixo. Pego-o pela gola da camisa e lhe dou um soco, depois outro e mais outro...

            - Eu o avisei que se fizesse algo com Pedro você receberia o troco! POR QUE FEZ ISSO? POR QUE O MATOU? Era apenas uma criança! POR QUÊ?

            Não sei quanto tempo o esmurrei até que algumas pessoas do bar me segurassem e me afastassem dele.

            - DEIXE-ME, gritei, não viram o que ele fez, ele merece!

            Havia uns cinco ou seis em cima de mim. Eu estava transtornado. Não sei como consegui ouvir a voz da mulher que o atendia no bar, mas ainda bem eu ouvi, pois senão cometeria um grande erro.

            - Para moço, para – ela suplica – não foi ele, ele não matou Pedrinho!

            - O quê?! Como não foi ele? Ele bate no filho!

            - Bate sim, mas só quando tá bêbado. Ele nunca mataria o filho.

            - Mas então quem...

            - Foi o Tino! Ele é o traficante daqui. O Pedrinho era o fio dele e devia dinheiro. Não foi o pai moço, ele é inocente!

            Inocente! Quem de fato é inocente nesse mundo. Se um garoto que roubava e vendia drogas é inocente, se um pai negligente e alcoólatra é inocente, então não sei mais o que é inocência. Será que só eu sou ainda tão inocente, ou será que não mais? Eles me soltam, então começo a correr. Corro e fujo para longe. Longe destas pessoas, longe de Pedro, de tudo. Uma, duas horas depois percebo que por mais que eu corra não posso fugir de mim mesmo. Esta fúria que sinto, esta força dentro de mim, não é normal. Não foi a primeira vez e não será a última. Há apenas uma maneira de saber o que está realmente acontecendo comigo. Existe uma pessoa que pode me ajudar, mas é a última pessoa que eu procuraria. Infelizmente, não tenho escolha se eu não quiser machucar mais alguém. É isso, vou procurá-la e sei exatamente onde ela está. Carlos terá que esperar mais um pouco...

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